quinta-feira, março 29, 2007

Eduardo dos Santos, Mugabe & Kadhafi

O Governo de José Eduardo dos Santos não está, como nunca esteve, com meias palavras. E se agora resolveu dar uma ajudinha ao “democrata” que gere Zimbabué, o mesmo tinha sido feito em 2001, embora de uma outra forma. Ou seja, nesse ano, Angola aceitou acolher, segundo o então governador do Banco Central angolano, os fazendeiros que decidam abandonar o Zimbabué devido à política de terras do presidente Robert Mugabe. Mudam-se os tempos…

Aguinaldo Jaime garantiu na altura que aqueles fazendeiros poderão comprar ou alugar terras em Angola por períodos longos e terão assegurado o respectivo título de propriedade.

Pelos vistos, Aguinaldo Jaime era dono e senhor de Angola, razão pela qual podia decidir o que bem lhe apetecesse, mesmo que isso seja feito à revelia dos angolanos.

Segundo Aguinaldo Jaime, o executivo de Luanda lançou uma nova estratégia de atracção de investidores, especialmente nos sectores exteriores ao petróleo, como a mineração, agricultura e pescas.

Na altura, mais do que agora, Angola pedia aos pobres dos países ricos para dar aos ricos do seu pobre país.

Aguinaldo Jaime notou que, apesar de Angola ter atraído um investimento externo directo considerável no sector dos petróleos, este capital não criou um número significativo de postos de trabalho, pelo que era necessário apostar nas indústrias de mão de obra intensiva.

Por isso foram tomadas medidas encorajadoras do investimento em todas as áreas da economia angolana e, à excepção da segurança e transportes e as normas permitem o total repatriamento dos dividendos.

Haverá, com certeza, quem acredite nestas ideias... nem que sejam os fazendeiros do país de Robert Mugabe. Falta, contudo, o resto. E o resto, que todos os dias se sabe não ser tão pouco quanto isso, não passa pelo Governo de Luanda mas, isso sim, pelos angolanos onde é necessário e inevitável incluir a UNITA.

Aguinaldo Jaime garantiu que o Estado angolano não interferirá na gestão das empresas estrangeiras e que não forçará os investidores externos a aliarem-se a parceiros locais.

Não interferirá? Nesta é quem os fazendeiros acreditaram.

"Se pretendemos que as pessoas invistam recursos maciços, elas têm de sentir que podem gerir os investimentos como querem e repatriar os respectivos lucros". Nem José Sócrates diria melhor...

Para defender que Luanda "fez muito" nos últimos anos para normalizar a economia angolana, citou (2001) a liberalização das taxas de juros e dos mecanismos de controlo de divisas, a reestruturação das empresas públicas, a retirada de algumas barreiras comerciais e um esforço de transparência na gestão política e económica do país.

Notou ainda, neste domínio, que as receitas do petróleo e a contabilidade do banco central começaram a ser submetidas a auditoria por entidades independentes e que a inflação baixou nos últimos quatro anos de 3.000 para 70 a 80 por cento.

E tudo isto aconteceu - recorse-se - numa altura em que Moammar Kadhafi apresentou a solução (eventualmente retirada dos manuais do MPLA) para o problema do Zimbabué: expulsar todos os brancos de África e ocupação das suas terras.

Kadhafi, que na altura visitou o Zimbabué, exortou os zimbabueanos negros e os africanos em geral a correrem com os brancos do continente e a só pararem se estes aceitarem transformar-se em criados.

Recorde-se que cerca de 1.700 fazendas pertencentes a brancos foram ocupadas desde que Mugabe exortou os chamados antigos combatentes a ignorarem a lei e as ordens dos tribunais e a apropriarem-se de terras.

O executivo zimbabueano já referenciou para nacionalização sem compensação cerca de 5.000 fazendas de brancos (95% do total).

Este ambiente de tensão tem provocado um duplo efeito sobre a vizinha África do Sul. Pretória viu-se forçada a assumir o abastecimento eléctrico e de combustível do Zimbabué, para evitar o colapso de um país que até recentemente era um dos seus principais mercados de exportações.

Por outro lado, enquanto vai absorvendo milhares de imigrantes ilegais, em fuga do desemprego nos países vizinhos, a África do Sul tenta assegurar que a sua própria redistribuição de terras não siga o caminho do Zimbabué.

(As palavras voam, mas os escritos são eternos).

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