quarta-feira, Agosto 01, 2012

“Porreiro, pá!”, diz Durão a Gomes Júnior




Só depois de ser deposto do cargo de primeiro-ministro é que Carlos Gomes Júnior passou a defender, como voltou a dizer hoje, o envio para a Guiné-Bissau de uma força multinacional “sob o chapéu das Nações Unidas” para evitar as “barbaridades” cometidas pela Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO).

De acordo com a Lusa, Carlos Gomes Júnior falava aos jornalistas à saída de um encontro com o presidente da Comissão Europeia, em Lisboa, durante o qual agradeceu a posição de Durão Barroso e da União Europeia sobre a crise na Guiné-Bissau.

A reunião surge dias depois de Durão Barroso ter exigido (como se a sua exigência fosse além de um “porreiro, pá!”) o respeito pela ordem constitucional e afirmado, na abertura da IX conferência da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), a 20 de Julho em Maputo, que a União Europeia não tolerará mais golpes na Guiné-Bissau.

“A UE é um parceiro muito importante para a Guiné-Bissau. Temos de mantê-lo informado e trocar opiniões”, disse o primeiro-ministro deposto, que saiu da reunião acompanhado do ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo deposto no golpe de Estado de 12 de Abril, Mamadu Djaló Pires, e do embaixador da Guiné-Bissau em Portugal, Fali Embaló.

Questionado sobre qual a mensagem de Durão Barroso na reunião de hoje, Carlos Gomes Júnior disse que o presidente da Comissão Europeia “tem recomendado o diálogo das partes para tentar arranjar uma solução, mas condenando sempre o golpe”.

Para Carlos Gomes Júnior, a CEDEAO “não se pode arrogar sozinha a resolver o problema da Guiné-Bissau”, já que há outros organismos, como a União Africana e a CPLP que “têm uma palavra a dizer para, conjuntamente, tentar arranjar uma solução”.

A Guiné-Bissau tem um Governo e um Presidente de transição, mas a maioria da comunidade internacional não reconhece as actuais autoridades saídas do golpe. A CEDEAO é a única instância internacional que apoia as actuais autoridades de transição.

Será que Carlos Gomes Júnior  se recorda que em 19 de Dezembro de 2007, António Maria Costa afirmava, em Lisboa, que “a Guiné-Bissau está à beira do colapso, com o Estado incapaz de assegurar a soberania do território face ao narcotráfico e ao crime organizado”?

Dando mais um relevante exemplo de perspicácia, mesmo que eventualmente sustentado por informações dos serviços (pouco) secretos de Portugal, o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Portas, disse recentemente que a questão do narcotráfico também é a chave do golpe de Estado de 12 de Abril na Guiné Bissau.

Foi uma conclusão brilhante. Aliás, quase desde que se tornou independente que todo o mundo (talvez com a excepção de Portugal) sabe que o narcotráfico é uma forma de vida de muitos  militares e políticos guineenses.

Creio que as informações que Paulo Portas recebeu quentinhas são, afinal, requentadas e não passam de uma cópia fiel do que se tem passado desde que, por exemplo, Nino Vieira chegou ao poder, também através de um golpe de Estado. Os relatórios são sempre os mesmos, apenas mudando a data e o nome dos protagonistas.

É pena que ninguém tenha dito a Paulo Portas e, já agora, a Carlos Gomes Júnior, que, já no dia 24 de Junho de 2009,  um relatório do director executivo do Escritório das Nações Unidas sobre a Droga e o Crime (UNODC), António Maria Costa, dizia com todas as letras que o narcotráfico era uma das causas da violência e da instabilidade políticas na Guiné-Bissau.

Já antes, em 19 de Dezembro de 2007, António Maria Costa afirmava, em Lisboa, que “a Guiné-Bissau está à beira do colapso, com o Estado incapaz de assegurar a soberania do território face ao narcotráfico e ao crime organizado”.

Tal como o poder político, entre outros, em Portugal é permeável à corrupção, o poder militar na Guiné-Bissau “é permeável ao narcotráfico”.

O grau de permeabilidade depende, obviamente, de se saber se os golpistas são ou não amigos do governo português. No tempo de Nino Vieira a situação era a mesma mas o então presidente era, digamos, visita de casa dos donos de Portugal. Por isso tinha carta branca para negociar a branquinha. Os de agora não agradam a Lisboa e, por isso, são os maus da fita.

“Eu não tenho nenhuma dúvida. Todas as informações de que Portugal dispõe apontam para que, claramente, na origem deste golpe de Estado também está o narcotráfico e, ou a Guiné-Bissau tem condições para ser um Estado de Direito, ou a Guiné-Bissau fica sequestrada a um certo poder militar que é permeável ao narcotráfico”, disse Paulo Portas.

Mas será que nenhum dos frequentadores dos areópagos da política do reino lusitano se lembra que Nino Vieira esteve metido até ao pescoço em crimes de sangue e de corrupção mais do que activa? Que Nino Vieira usou todo o género de truques, de golpes, para se perpetuar no poder, afastando política ou fisicamente quem lhe fez sombra, sejam eles Kumba Ialá ou Carlos Gomes Júnior, líder do PAIGC e primeiro-ministro deposto que em tempos disse que Nino teria sido o mentor do assassinato do Comodoro Lamine Sanha?

Mas há mais. Recorde-se que o mesmo Carlos Gomes Júnior  afirmou no dia 25 de Outubro de 2008 que "há dinheiro do narcotráfico na campanha eleitoral" para as legislativas de 16 de Novembro”.

"Só não vê quem não quer. Há dinheiro do narcotráfico nesta campanha eleitoral", acusou Carlos Gomes Júnior, no seu discurso de abertura da campanha do PAIGC em Bissau, dizendo que "nós não somos tolos, sabemos que há dinheiro da droga na campanha eleitoral. Se formos governo, vamos acabar com o banditismo e o crime organizado neste país, podem ter a certeza disso".

Carlos Gomes Júnior dizia nesse dia que se fosse eleito primeiro-ministro no dia 16 de Novembro, com foi, iria promover uma ampla reforma no país, dotando as forças de defesa e segurança de meios para combater "todos os crimes" na Guiné-Bissau.

Pois é. Agora é preciso repor a ordem. Quando o primeiro-presidente da Guiné-Bissau, Luís Cabral, foi deposto por um golpe de Estado liderado por “Nino” Vieira, em 1980, onde andavam todos estes arautos da legalidade e da reposição da ordem?

Um ano antes de morrer, em 9 de Julho de 2008, Luís de Almeida Cabral considerou que a existência de tráfico de droga no seu país natal constitui uma "vergonha", apelando às autoridades de Bissau para combaterem o fenómeno: "É uma situação muito má. Desejo que as autoridades e o povo guineenses possam combater esta vergonha que não traz nada de bom".

Pois é. Mas nessa altura, também nessa altura, tudo ficou na mesma. E ficou assim, calculo, porque ainda não existiam a ONU, a CPLP, Portugal, Angola ou Cavaco Silva.

Alguém ainda se lembra que, em 18 de Maio de 2009, o  Procurador-Geral da República da Guiné-Bissau, Luís Manuel Cabral, disse que a instituição estava sem dinheiro para continuar o processo de investigação aos assassínios do Presidente 'Nino' Vieira e do general Tagmé Na Waié?

Será que Kumba Ialá tinha razão quando, em 17 de Junho de 2009, acusou o PAIGC de ser responsável pela morte de Amílcar Cabral,  "Nino" Vieira, Tagmé Na Waié, Hélder Proença e Baciro Dabó?

"Carlos Gomes Júnior tem que responder no Tribunal Penal Internacional pelas atrocidades que está a cometer", no país, defendeu nesse dia Kumba Ialá, acrescentando que "há pessoas a quererem vender a Guiné-Bissau", mas esclarecendo que "serão responsáveis pelas turbulências que terão lugar no futuro".

Durão Barroso e  companhia estão preocupados com Carlos Gomes Júnior, exigindo o regresso à normalidade institucional. Quando os EUA, por exemplo, avisaram as autoridades da Guiné-Bissau que o novo chefe das Forças Armadas não poderia estar implicado nos acontecimentos de 1 de Abril (2010), como era o caso do major-general António Indjai, o que fez Gomes Júnior?

Escolheu (e o presidente Balam Bacai Sanhá aceitou) para chefiar as Forças Armadas, nem mais nem menos do que... António Indjai.

Recorde-se que Indjai foi o protagonista dos acontecimentos militares de 1 de Abril e que chegou (embora depois tenha pedido desculpa) a ameaçar de morte o primeiro-ministro, Carlos Gomes Júnior.

2 comentários:

Retornado disse...

O grande e eterno problema da Guiné-Bissau não é de Carlos Gomes, nem de Amilcar Cabral e do irmão, e até nem do "inverosímel" Nino Vieira, nem do PAIGC ou de Spínola.

O grande problema é a fronteira Norte e os vizinhos Casamancinos.

E a França e Senegal já há muitos anos que chegaram à conclusão que têm que diluir aquela fronteira para dominar a Casamance.

E para isso só desestabilizando permanentemente a Guiné-Bissau até esta e os casamancinos se "renderem".

Isto enquanto não aparecer o petróleo na costa marítima onde as fronteiras ainda estão indefinidas, aí vai ser o fim.

Dizia Sekou Touré que Guiné só há uma.

E dentro da Guiné há muitos guineenses a pensar o mesmo, porque as fronteiras geográficas não criaram fronteiras étnicas até aos dias de hoje.

Comentar nomes apenas, é zero, é só atirar achas para a fogueira.

O que Durão, Paulo Portas, Amílcar, e a CPLP significam para a Guiné-Bissau é e foi salvar um PALOP.

Um português que não compreenda isto, é melhor não falar no assunto

Anónimo disse...

ESSE CADUCADO JUNIOR NÃO DESISTE MESMO??? OLHA, A FILISOFIA DELE " VOU SER PRESIDENTE A QUALQUER CUSTO OU MATO TODOS OS GUINEENSES" AMBICIOSO, GANANCIOSO, E EGOISTA.